A Gesto foi uma revista idealizada por Regina Miranda e publicada pelo Instituto Municipal de Arte e Cultura – RIOARTE entre 2002 e 2005 (ISSN 1677-9207). Com conteúdos históricos e reflexões contemporâneas, escritos por pessoas autoras do Brasil e do exterior, a revista contou com quatro edições, sendo as duas primeiras publicadas em Português e as últimas em versão bilíngue Português/Inglês.
A proposta da revista foi assim descrita por Fábio Ferreira, então Presidente da RIOARTE, na apresentação da primeira edição:
O corpo pensado como suporte da experiência contemporânea: é o eixo central da revista Gesto. Este perfil amplia o campo de abrangência desta publicação, que entende a dança na sua pluralidade de manifestações. Observando quão variadas são as falas do corpo contemporâneo, o RIOARTE concebe a revista Gesto do mesmo modo como o mestre Cunningham define a dança: “Ela deveria ser uma conversa.” Em momento mais do que oportuno, no qual novas demandas se constituem no diálogo entre a população desta cidade e sua dança, a Prefeitura do Rio promove um lugar de encontro dos variados saberes e discursos do corpo contemporâneo, incentivando também a formação de uma classe de teóricos de qualidade empenhados em desenhar um tênue equilíbrio entre o caráter transitório do movimento e sua indispensável captura pela memória. Palavra e corpo se encontram para inaugurar novas experiências, alinhavando, assim, a revista Gesto às consistentes iniciativas da política da Prefeitura do Rio dedicada à dança, cujo ineditismo, pertinência e continuidade escrevem história no Brasil.
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Gesto, V. 1, dez. 2002 (download)
EDITORIAL – Gesto é uma publicação centrada no movimento e na razão do corpo. Todas as áreas do pensamento e das artes já enquadraram este objeto de culto e conflito em enfoques muito próprios: o catolicismo condenou a carne como cerne da luxúria, a psicanálise resgatou-a da culpa cristã, e, recentemente, a tecnologia vem excedendo o limite do humano. Há o corpo que dança e o corpo que pensa; ele é filosóficо, antropológico, jurídico e de quem mais reclamá-lo. Mas, paradoxalmente, na lida, permanece o velho corpo humano, com sua excelência e precariedade, esplendor e finitude. Um espaço de extremos, individual e autêntico, que é, antes de tudo, a prova da nossa humanidade.
A revista Gesto vem assegurar um lugar para esta discussão em torno do corpo contemporâneo, pensando-o em diversas expressões e expondo-o em sua fisiologia, raciocínio, instinto. Ensaios variados perfazem caminhos do pensamento à ação, da ciência à dança contemporânea. Esta, que extrai do corpo a inteligência do movimento, surge em diversos artigos. Autores investigam a interação entre a coreografia e a literatura, o corpo e a cidade que o confronta.
Neste primeiro número, Gesto conta ainda com participações estrangeiras exclusivas. O filósofo francês Michel Onfray concebe um corpo pagão e hedonista. O fotógrafo esloveno cego Evgen Bavcar mostra como o corpo do deficiente abriga o lugar da utopia num mundo dominado pelo homem-máquina. A americana Leslie Satin relaciona o texto falado e a criação coreográfica. Gesto acolhe todo e qualquer debate sobre o corpo tal como é pensado e usado, o corpo-cidadão, o corpo-espetáculo.
(“A razão do corpo”, editoral de Luciana Hidalgo)
Textos de Américo Vermelho, Carlinda Nuñez, Evgen Bavcar, Helena Katz, Karen Bradley, Jorge Bastos, Leslie Satin, Leonardo Aversa, Leonel Brum, Luciano Trigo, Luiz Camillo Osorio, Marina Martins, Mirian Goldenberg, Nani Rubin, Paulo Jares, Renato Rezende. Silvia Soter e Thereza Rocha.
Gesto, V. 2, jun. 2003 (download)
EDITORIAL – Gesto traz a sua segunda edição estruturada nos mais cliversos conceitos e análises do corpo, seja este o que cada indivíduo achar por bem definir: o (corpo) dançante, o hedonista, o sofrido, o abençoado, o mortal. Apresentar abordagens sobre esta matéria que embrulha o homem e o personaliza no mundo concreto, contudo, leva-nos, invariavelmente, ao enigma – e à genial frase do filósofo francês Claude Bruaire, que tudo sintetiza: “O corpo é compreendido da mesma forma como Deus é concebido. ” Isto é, como mistério. E aí residem a excelência e o
poder encantatório da dança.
Portanto, quando Gesto se propõe a reunir teorias sobre corpo e dança, torna-se terreno para o absoluto. Neste número, por exemplo, o professor da New York University André Lepecki escreve artigo exclusivo em que aborda um tema mais do que pertinente: como os coreógrafos contemporâneos devem lidar com a perversa idéia de colonização do corpo. Já a antropóloga americana Judith Lynne Hanna toma outra via: desvenda o mundo das dançarinas de strip-tease e explora o conceito de “dança exótica “, assegurando seu valor estético no democrático universo do movimento.
Gesto acompanha ainda outras questões: uma discussão polêmica em torno dos limites entre criação, cópia e plágio em coreografias recorrentes pelo mundo; um debate sobre a interação do balé clássico com a dança contemporânea nos palcos; e uma investigação sobre o corpo atual do bailarino, não mais estereotipado, longilíneo e seco, mas, simplesmente, humano. Num ensaio inédito, o fotógrafo Bruno Veiga também desmistifica os corpos dos bailarinos, clicando-os nos mais triviais ritos domésticos. O resultado reflete o enigma: entre a perfeição estética e a fragilidade humana, o corpo pode ser uma infinidade de seres, quereres e poderes.
(“O enigma do corpo”, editoral de Luciana Hidalgo)
Textos de Adi Leite, Adriana Pavlova, Alexandre Martins, Ana Cecilia Martins, Ana Francisca Ponzio, André Lepecki, Bruno Veiga, Carlos Alberto Messeder Pereira, Chris Dame, Custódio Coimbra, João Cezar de Castro Rocha, Judith Lynne Hanna, Kiko Coelho, Luciano Trigo, Mauro Sá Rego Costa, Roberto Pereira, Rubem Grilo, e Sérgio Nazar David.
Gesto, V. 3, dez. 2003 (download)
EDITORIAL – Gesto chega à terceira edição, reafirmando a temática “corpo” como manancial de enunciados, significados, questionamentos. Quanto mais esmero há na tentativa de compreensão do tema, mais interrogações surgem, tornando esta publicação uma confluência de abstrações e reflexões. Afinal, a questão formulada pelo filósofo Spinoza no século XVII permanece até hoje uma sombra a ser desvelada: “Ninguém, na verdade, até o presente, determinou o que pode o corpo, isto é, a expеriência não ensinou a ninguém, até o presente, o que, considerado apenas como corporal pelas leis da natureza, o corpo pode fazer e o que não pode fazer, a não ser que seja determinado pela alma.”
E o que pode o corpo per se? Diversos autores refletem sobre a pergunta em Nietzsche e Deleuze: Que pode o corpo?, livro resenhado nesta edição. O professor e escritor Gustavo Bernardo cumpre tarefa igualmente complexa, ao tentar desvendar o enigma intrínseco (quem sabe, extrínseco) ao corpo feminino, pela forma como Machado de Assis, Clarice Lispector e outros autores traduziram, literariamente, a mulher. Em outro ensaio, Charles Feitosa utiliza a filosofia de Vilém Flusser para investigar o que há por trás dos gestos banais do cotidiano – e conclui que plantar, fazer a barba e dançar têm muito a dizer sobre a forma como o homem se relaciona com a existência.
Gesto entrevista com exclusividade a americana RoseLee Goldberg, autora da consagrada obra Performance art, falando, é claro, de performance. E o jornalista Gustavo de Oliveira escreve sobre um outro tipo de performance, esta afro-brasileira e da ordem da fé: o candomblé que, baseado em incorporações, exalta a primazia do corpo e inspira espetáculos de dança no Brasil. Entre outros assuntos, a revista traz ainda um artigo sobre centros coreográficos internacionais, que situa o Centro Coreográfico do Rio em seu diálogo com o mundo – neste mesmo espírito de conexão universal, Gesto passa a ser bilíngüe (português-inglês), ampliando seu espectro de leitores.
(“Corpo e poder”, editorial de Luciana Hidalgo)
Textos de Adriana Bonfatti, Ana Branco, Ana Cecília Martins, André Vilaron, Charles Feitosa, Daniela Name, Daniele Calichio, Denise da Costa, Oliveira Siqueira, Eliane Heeren, Gustavo Bernardo, Luciano Trigo, Marina Martins, Miguel Rio Branco, Nani Rubin, e Rubem Grilo.
Gesto, V. 4, ago. 2005 (download)
EDITORIAL – O que se festeja no aniversário de um ano do Centro Coreográfico do Rio é antes de tudo a dança em si, este ofício que “não é entretenimento, arte ornamental ou um jogo qualquer de sociedade, mas uma coisa séria e muitíssimo venerável”, como já disse o poeta francês Paul Valéry. Dança é coisa séria e, por isto, espalha-se nesse belíssimo espaço arquitetônico no Rio de Janeiro, projetado especialmente para aqueles que a vivem em sua rotina e excelência, inspirando um público que não se cansa de admirar a estética do corpo dançante/pensante.
Esta edição especial da Gesto celebra a dança e, sobretudo, as dançarinas, estas figuras míticas que ao longo dos séculos firmaram-se com suor e leveza no mundo das artes. É o que mostra a pesquisa realizada para a exposição A construção do feminino na dança (séculos XVXVIII), exibida este ano no Centre National de la Danse, em Paris, e comentada neste número, mostrando como o moralismo religioso marcou o corpo feminino, cerceando seu movimento e criando regras rígidas de comportamento social. Em diversas épocas, a dançarina significou o mal em carne, osso e músculo. Assim construiu-se o mito – e o mistério que perdura.
A festa do Centro Coreográfico é dedicada a dançarinas e dançarinos, coreógrafos e coreógrafas, técnicos, equipes e espectadores cariocas. Nesse rastro, a Gesto preparou uma matéria especial em que o Centro é radiografado em seus conceitos, projetos e utopias. A edição traz ainda, entre outros artigos, uma entrevista com a carioquíssima Carmen Luz, especializada em levar teatro e dança a jovens de morros e comunidades pobres do Rio, formando-os corporal e intelectualmente. É dela a frase: “Dançar é um ato político.” Sim, o poder da dança está na poética de cada corpo e é transformador.
(“O poder da dança”, editorial de Luciana Hidalgo)
Textos de Ana Vitória, Denise Oliveira Siqueira, Gustavo de Oliveira, Inés Bogea e Ivan Junqueira.




