Midiateca em Movimento: Garrafas ao Mar

Desejando acionar dispositivos simples que mobilizem menos tecnologias, a proposta pretende criar um jogo de correspondências em movimento e ressonância, onde um autor (real ou fictício) escreve uma “carta” por email e a envia, numa espécie de “garrafas ao mar”.  Aquele que recebe a carta responde com outra carta-reflexão, dando continuidade ao jogo de movimentos escritos. As “cartas/garrafas ao mar” enviadas e suas respostas ficarão disponíveis/ancoradas nas redes sociais do CCo. Já imaginou receber uma carta de Ruth Saint-Denis, Alvin Ailey ou Mercedes Baptista nos dias de hoje? Prepare-se!

Contaremos nessa edição com a colaboração da bailarina e coreógrafa Rita Serpa.

Primeira Carta 

Eu sou de Campos. Eu era a única de cor da escola… Eu não sabia nada, nada de dança… Iniciei meus estudos com a Eros Volusia… Depois entrei na Escola de Dança do Teatro Municipal… Mais tarde entrei para o Corpo de Baile… Eu não fiz muitos espetáculos lá porque eu era discriminada… Madeleine Rosay, Vaslav Veltchek, Edy Vasconcelos e Nina Verchinina me deram boas oportunidades na carreira, sem olhar minha cor. Os problemas vieram depois. Eu me vi de repente excluída de tudo, e nem que pusesse um capacho cobrindo meu rosto me deixavam pisar em cena. Só uma vez atravessei o palco usando sapatilhas de pontas e, ainda assim, lá no fundo… Tudo foi sempre muito difícil, mas quem iria assumir ou deixar claro que parte das minhas dificuldades era pelo fato de que eu não era branca? Nunca iriam me dizer isso, nem dizer que o problema era racial, mas eu sabia que era e, por isso, sempre lutei cada vez procurando me aperfeiçoar… Fui do Teatro Experimental do Negro… Fui do grupo de Katherine Dunham em Nova Iorque… Voltei para o Brasil e criei a minha escola e o meu grupo profissional, o Ballet Folclórico, aplaudido aqui e no estrangeiro… Dizem que revolucionei a apresentação das Escolas de Samba no Carnaval carioca ao introduzir coreografias… Provoquei grandes polêmicas. 

Mercedes Baptista

Segunda Carta

Jamais se assuste ou admire da relação da Arte elitista com os pobres, sim aqueles sem vez, sem nome e sem cor.

Fui menina pobre, de uma família de negros, honesta e sem muitas chances na vida. Mas por alguma ironia eu nasci artista. Não sabia, mas nasci.

Aí começa a longa trajetória dos longos caminhos que percorri. Algumas vezes clarões, outras becos sem saída…Mas fui. Teimosa, dançante, negra e anja. Fui.

Conheci Nina Verchinina, russa, olhos de mar e pele muito clara. Linda, deusa. 

Viu em mim alguém que tinha nome, sonhos e muros a romper. Me viu artista, fluida entre pianos e tambores, entre o chão de terra e as terras do devir. Segui.

Criei, dancei, briguei, amei, amei odiar as correntes que se lançavam no meu caminho. Caminhei não nego, fui feliz.

Guardei em meu coração um pensamento que me disse Nina Verchinina: CONTINUO MINHA BUSCA APESAR DOS DIAS E DAS NOITES.

Na hora que ouvi não me tocou, não dei bola!!!! Mas no correr do sufoco da vida foi o que me fez prosseguir. Na Arte nunca se chega, sempre se busca. 

Mercedes das Buscas dos Dias e das Noites.

Ficha Técnica: Realização Midiateca do Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro

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